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Clima fora de controle: estudo revela que crescimento do CO2 nunca foi tão instável em 900 anos
Reconstrução inédita mostra aceleração sem precedentes da variabilidade do carbono na atmosfera e aponta perda de resiliência do sistema climático sob pressão humana
Por MaisConhecer - 21/04/2026


Imagem: Reprodução


Cientistas acompanharam, por décadas, o aumento contínuo da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Agora, um novo estudo internacional amplia essa lente para quase um milênio — e revela um dado inquietante: a variabilidade anual do crescimento do CO2 nunca foi tão alta quanto nas últimas décadas.

Publicado na revista Nature Communications, o trabalho liderado por Xu Zhang, com Jinbao Li e Laibao Liu, da Universidade de Hong Kong, reconstrói a taxa de crescimento do CO2 atmosférico — conhecida como carbon growth rate (CGR) — ao longo dos últimos 900 anos, entre 1100 e 2006. A conclusão é direta: “A variabilidade atual do crescimento do CO2 é sem precedentes”, afirmam os autores .

Uma janela inédita para o passado climático

Até hoje, medições diretas da taxa de crescimento do CO2 existem apenas desde o final dos anos 1950. Isso limitava a compreensão da variabilidade natural do sistema climático. Para contornar essa lacuna, os pesquisadores recorreram a uma vasta rede de dados paleoclimáticos — incluindo anéis de árvores, sedimentos lacustres e registros de corais — combinados com modelos climáticos globais.

“Era essencial colocar o presente em contexto histórico”, disse Jinbao Li, autor correspondente do estudo. “Sem isso, não conseguimos separar o que é variabilidade natural do que é resultado direto das atividades humanas.”

A equipe utilizou mais de mil simulações estatísticas para reconstruir a variabilidade anual do CO2. O método foi validado com modelos de vegetação global e índices climáticos como o fenômeno El Niño, reforçando a robustez dos resultados .

O papel dos trópicos e dos extremos climáticos

Um dos principais achados do estudo é a forte ligação entre a variabilidade do CO2 e o clima tropical. Em anos mais quentes e secos — especialmente durante eventos de El Niño — a vegetação terrestre absorve menos carbono e libera mais CO2, elevando a taxa de crescimento atmosférico.

“Altas temperaturas e seca intensificam a respiração dos ecossistemas e reduzem a fotossíntese, o que aumenta o CO2 na atmosfera”, explicam os autores .


As florestas tropicais, em particular, aparecem como peças-chave nesse equilíbrio. Segundo o estudo, esses ecossistemas têm a maior correlação com as variações anuais do carbono, devido à sua alta produtividade e sensibilidade às mudanças climáticas.

Um sistema cada vez mais instável

A reconstrução revela três grandes fases ao longo dos últimos nove séculos: alta variabilidade antes de 1500, relativa estabilidade entre os séculos XVI e XX, e uma nova fase de forte instabilidade a partir da década de 1980.

Essa última fase coincide com o aumento acelerado das emissões de gases de efeito estufa decorrentes da industrialização. “A amplitude atual da variabilidade do CO2 sugere uma crescente instabilidade do ciclo do carbono”, alertam os pesquisadores .

O estudo também aponta que a variabilidade recente supera até mesmo períodos historicamente quentes, como o início do século XV — até então considerado um dos picos naturais de instabilidade climática.

Impacto humano e risco climático

Os resultados reforçam a hipótese de que o sistema climático está perdendo resiliência diante do aquecimento global. Em termos práticos, isso significa maior imprevisibilidade no comportamento dos ecossistemas e no papel da natureza como “sumidouro” de carbono.

Atualmente, a atmosfera absorve cerca de metade das emissões de carbono geradas pelas atividades humanas. Mas esse equilíbrio pode estar em risco. “O aumento da variabilidade indica que os ecossistemas terrestres estão mais sensíveis às flutuações climáticas”, destacam os autores .

Essa instabilidade pode ter efeitos em cadeia, afetando a agricultura, a disponibilidade de água e a frequência de eventos extremos — como secas prolongadas e ondas de calor.

Um alerta para o futuro

O estudo chega em um momento crítico, em que modelos climáticos já projetam intensificação de extremos hidrológicos e térmicos ao longo do século XXI. A nova evidência histórica reforça que o sistema climático não apenas está aquecendo, mas também se tornando mais volátil.

Para os pesquisadores, o próximo passo é aprofundar a compreensão dos mecanismos que ligam clima e carbono. “Precisamos entender melhor como essas interações vão evoluir sob diferentes cenários de emissão”, afirma Xu Zhang.

A mensagem, porém, já está clara: o planeta entrou em uma fase inédita de instabilidade climática — e o relógio para conter seus efeitos está correndo.


Referência
Zhang, X., Li, J. & Liu, L. Taxa de crescimento anual do CO2 atmosférico ao longo dos últimos nove séculos. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-72220-2

 

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